Uma boa razão para bem delimitar o hospitalista: definição do core business, da “sacada” do negócio.

Tenho visto apresentações ou textos usando o termo hospitalista de diversas formas. Observei, somente nos últimos meses, referirem-se à:

Hospitalista de enfermaria
Hospitalista intercorrentista
Hospitalista de Time de Resposta Rápida
Hospitalista emergencista
Hospitalista intensivista
Hospitalista de sala de recuperação
Hospitalista parecerista
Hospitalista paliativista 
Hospitalista de gerenciamento de leitos
Hospitalista de auditoria de qualidade
E por aí vai…

Já discutimos AQUI o conceito. Mas não o estabelecemos, na prática, na ponta, por mandato, muito menos meu sozinho.

Em parte, a confusão encontra justificativas. Não é incomum médicos que atuam de hospitalista, ou que simplesmente tenham uma formação de clínico geral (origem da maioria dos hospitalistas), cubram plantões em Unidades de Terapia Intensiva. Trabalho, no Rio Grande do Sul, em uma onde 100% dos médicos são intensivistas titulados, mas sabemos que essa não é a realidade na maior parte das UTI’s brasileiras. Ocorre que Medicina Intensiva é uma especialidade médica, e há razões para existir. Ou não? Para tratar os meus familiares, gostaria de uma unidade onde os rotineiros fossem especialistas ou, no mínimo, os especialistas fossem responsáveis maiores pela padronização da assistência médica ali executada nas 24hrs do dia. Além disto, o termo intensivista deve ser reservado para os médicos com especialização reconhecida. E título de especialista reconhecido é aquele outorgado pela Comissão Mista de Especialidades – formada pela Associação Médica Brasileira, Conselho Federal de Medicina e Comissão Nacional de Residência Médica. Sabemos que UTI’s mais distantes das capitais, quando existentes (44% dos leitos no SUS e 56% dos leitos privados do Brasil se encontram apenas nas capitais), podem ter vagas médicas preenchidas com não especialistas para poderem existir. Mas profissionais não devem usar designações simplesmente para algum destaque pessoal ou institucional, em especial aqueles relacionados às especialidades ou áreas de atuação médicas reconhecidas no país.

Analisemos também o hospitalista emergencista. Muitos candidatos a hospitalista “de verdade” e a médico emergencista têm hoje a mesma formação, então que diferença faz? Após anos intensamente marcados por conflitos, a Medicina de Emergência foi reconhecida recentemente como especialidade independente no Brasil. Será um processo longo até que os postos de trabalho propriamente ditos sejam predominantemente (ou ao menos, estrategicamente) preenchidos por emergencistas de formação. Traçando um paralelo, foi assim com as boas UTI’s. No staff da que trabalho, existiam médicos de várias especialidades. Atualmente, restam colegas anteriores aos que foram os primeiros residentes de Terapia Intensiva do Brasil, na década de 80 ainda, e que, portanto, possuem outra formação de origem. Ainda assim são, atualmente, titulados por prova, e dos contratados mais recentes exigiu-se necessariamente especialização por treinamento em serviço. Neste contexto, será inteligente, na perspectiva do hospitalista como uma futura especialidade ou, ao menos, uma área de atuação, dar margens à outra possibilidade que não uma parceria estratégica com intensivistas e emergencistas? Há possibilidade de parceria atravessando-se, já no nome, no espaço do outro?

Na semana passada, estive em duas operadoras de planos de saúde para tratar de hospitalistas. Em uma delas, estavam cinco executivos da saúde, e os cinco possuíam conceitos diferentes de hospitalista. Como convencer desta maneira? Ao menos é muito mais laborioso. Um deles saiu dizendo: “isso que você irá apresentar é bom, mas é investimento para o hospital fazer isoladamente”. Mas referia-se à outra coisa.

Não é mais complexo discutir financiamento ou novos modelos de remuneração para algo que pode ser um Time de Resposta Rápida, ou quem sabe um Programa de Cuidados Paliativos, ou um Time de Procedimentos, ou até combinações disto? São modelos de negócio diferentes, gente! Não necessariamente os que ganham e os que sentem-se ameaçados são os mesmos em cada uma destas iniciativas. Como fortalecer, então, vínculos com potenciais financiadores ou facilitadores?

Nos dias de hoje, o desafio de implantar e financiar um robusto programa de cuidados paliativos é até maior do que viabilizar um grupo de hospitalistas. E tem sido até comum a filosofia de cuidados paliativos invadir hospitais indiretamente através de programas de medicina hospitalista – uma prova de que o entrelaçamento faz parte, embora não afaste a necessidade de que tenhamos planos de ação específicos para viabilizar mais profundamente cada uma destas boas ideias.

Em síntese, não seria mais inteligente valorizar um produto e suas características específicas, embalando de forma especial, buscando oferecê-lo para o(s) cliente(s) mais propenso(s) a pagar por ele? É esta a postura que defendo na Academia Brasileira de Medicina Hospitalar (ABMH). Nada disto impede que, no íntimo de cada hospital ou grupo, estabeleçam-se os arranjos e os entrelaçamentos que queiram fazer (evitem muita “criatividade” só, por favor – geralmente vêm estimuladas por gestores que fazem qualquer coisa para a contenção dos custos, e médicos que não sabem dizer não). Os próprios hospitalistas norte-americanos atuam em várias destas outras funções, chamando-as de Add-on Services – complementares então. Mas as bases teóricas e os resultados a esperar são distintos entre as possibilidades. Então como defender algo que não se define bem, ou defini-se como qualquer coisa de hospital (nesse aspecto, o nome Medicina Hospitalar não nos ajuda)? Como aplicar uma análise SWOT se você é tudo e não é nada, se as oportunidades de uma são as lacunas deixadas por outra, se uma é eventualmente ameaça (mesmo que ilusória) para a outra?

A Society of Hospital Medicine acompanha a heterogeneidade das práticas na ponta e obviamente não limita nada e nem ninguém. Mas soube alavancar o hospitalista com maestria. Aquele hospitalista que é um médico assistente dedicado ao hospital, mais intimamente à enfermaria e/ou um co-assistente de pacientes cirúrgicos. Se fizermos igual, até mesmo hospitais outros que os gigantes de São Paulo poderão tornar-se benchmark nacionais em Medicina Hospitalista. O da Cruz Hospital da Cruz Vermelha Brasileira – Paraná já é inclusive. No entanto, teremos dificuldades em fazer o mesmo através de outras várias das iniciativas mencionadas. Times de Resposta Rápida e Núcleos de Gerenciamento de Leitos já existem aos baldes pelo Brasil, e gente fazendo muito melhor há bastante mais tempo, com muito mais méritos para eventual protagonismo então. Defendo um core business, sem que nossos hospitais deixem de surfar qualquer onda que os tornem melhores, ou mesmo sem que hospitalistas deixem de atuar como facilitadores ou até colaboradores diretos em qualquer uma delas, deste que não atrapalhe a “sacada” do negócio, e a possibilidade de, algum dia, acontecer a oficialização como especialidade médica ou área de atuação no Brasil.

Fonte: Saúde Business - 08/10/2018


Veja mais notícias acerca do assunto:
O modelo hospitalista adapta-se a várias realidades: conheça experiência em hospital da Unimed.
Qual a melhor escala para distribuição de hospitalistas?
“Hospitalista enxerga entraves no fluxo de atendimento hospitalar”


Data da notícia: 09/10/2018