Saúde com o próprio bolso

Saúde com o próprio bolso

 

O medo de perder clientela está fazendo com que as operadoras de planos de saúde ofereçam sistemas alternativos e mais baratos aos brasileiros. Nos chamados planos co-participativos, o usuário paga uma mensalidade mais em conta. Porém , toda vez que for fazer uma consulta ou exame tem que desembolsar um pequeno percentual do valor do serviço. Como o valor do plano individual está cada vez mais elevado, as empresas estimulam os co-participativos para manter e até elevar a quantidade de clientes.

 

Um estudo elaborado pela consultoria Strategy, especializada no mercado de saúde suplementar, e divulgado com exclusividade ao Correio, mostra que dos 3,182 milhões de beneficiários de 50 operadoras espalhadas pelo país, 36,8% têm planos co-participativos, um crescimento de 26% em relação a 2005 e de 54% na comparação com 2004. O movimento é mais gritante na região Centro-Oeste, puxado pelo Distrito Federal, onde o índice cresceu 30% de 2005 para 2006.

Segundo a Agência Nacional de Saúde Complementar (ANS), existem 36,95 milhões de usuários de planos de saúde no país. O levantamento da Strategy representa apenas 9% desse mercado. Mas, já aponta uma tendência de migração dos planos individuais para os co-participativos devido, principalmente, ao preço mais atrativo. "Esse plano é mais barato do que o tradicional. Foi desenvolvido com foco nas classes C e D, que não tinham plano", explica a coordenadora do estudo, chamado de Anuário de Custos de Planos de Saúde, Raquel Marimon.

Na avaliação da coordenadora, esse cenário pode ser benéfico tanto para o usuário quanto para as empresas. No caso do usuário, porque não ficará refém do sistema de saúde pública. Além disso, só pagará uma participação se utilizar o convênio. Já as companhias, conforme o estudo, conseguem diminuir os custos, por exemplo, de consultas e exames. Isso porque o usuário, ao ter que desembolsar na hora de fazer um exame ou consulta, acaba sendo mais criterioso. "A empresa oferece ao participante essa ferramenta para evitar que o usuário deixe o plano, mesmo não sendo o plano dos sonhos, no caso da internação, por exemplo, o custo é simbólico e dá uma garantia", ressalta Raquel.

Novos

O número de usuários de planos participativos cresceu 30% de 2005 para 2006 na região Centro-Oeste. Neste ano, a secretária Silvana Vargas Fialho vai ajudar a inflar ainda mais o contingente. Moradora de Sobradinho, Silvana já conta com um plano de saúde (que banca integralmente), porém, vai pedir um outro no trabalho para incluir a sogra de 67 anos como dependente. Por ser um plano co-participativo, a secretária pagará um preço mensal mais em conta.

            "Se fosse fazer um plano individual para minha sogra o gasto seria bem maior por causa da faixa etária. Incluindo-a como minha dependente, vai custar cerca de R$ 300. Ela estava pensando em fazer dois planos regionais (um para o DF e outro para o RJ). Ia custar mais de R$ 800 e não seria atendida em outros estados", contou.

 Antes de optar por um plano co-participativo para a sogra, Silvana pesquisou muito, até para saber a qualidade dos serviços. "Conversei com outras pessoas para saber se o plano é bom. Ninguém reclamou", afirmou. Segundo ela, esse convênio acaba sendo mais atrativo do que os planos normais por causa da contribuição que é feita conforme o uso.

Apesar da vantagem do preço, que atraiu Silvana e muitos brasileiros, os usuários precisam pesquisar cuidadosamente os seus direitos e os valores que serão desembolsados por exames, consultas e internações antes de contratar o plano. Muitas vezes, o barato pode acabar saindo caro.

Usuário reduz marcações

Houve redução do número de consultas médicas, de 2,8% de 2004 para 2006, passando de 5,3 atendimentos por usuário para 5,15. A queda foi efeito de mais planos co-participativos no total, associada a programas de promoção da saúde e prevenção de doenças e melhor fiscalização por parte das empresas para evitar fraudes.

A quantidade de pedidos de exames, que acumula uma expansão de 5,2% nos últimos três anos, só apresentou diminuição na Região Centro-Oeste. "Tem um aumento da freqüência na maioria das regiões porque existem mais modalidade de exames disponíveis devido à tecnologia e excesso de oferta", ressalta a coordenadora da pesquisa, Raquel Marimon. O índice de exames por beneficiários no Centro-Oeste recuou 6,7% (de 14,37 para 13,41), ficando a abaixo da média nacional de 13,95 exames por usuário. As regiões Sul-Sudeste e Norte-Nordeste, as elevações foram de 7,4% e 5,4%, respectivamente.

 A pesquisa aponta ainda uma considerável diminuição do número de pessoas internadas nos últimos três anos. Desde 2004, houve uma baixa de 11,4% para 9,9%. Raquel explica que essa não é uma situação restrita ao Brasil e sim uma tendência mundial. Na Europa, por exemplo, a proporção de internados caiu, em média, 0,9% de 2002 para 2005. No Centro-Oeste, o recuo foi o mais forte: cedeu de 14,1% em 2005 para 12,4% em 2006. A média do país é de 10,8%. (ES)

 

Crescimento

            Distribuição dos usuários de plano de saúde por tipo de contratação

            Planos Coletivos Planos Individuais

            2004 67,6% 32,5%

            2005 70,7% 29,3%

            2006 74,5% 25,5%

            Evolução dos planos Co-participativos

            2004 23,9%

            2005 29,2%

            2006 36,8%

            Índice de consultas (por beneficiário/ano)

            2004 5,3 consultas

            2005 5,26 consultas

            2006 5,15 consultas

            Índice de exames (por beneficiário/ano)

            2004 11,87

            2005 12,08

            2006 12,49

            Índice exames DF

            2005 14,37

            2006 13,41

Correção pressiona mensalidades

Há anos brigando com operadoras de planos de saúde pelo reajuste de honorários, médicos de todo o país aguardam a votação de um projeto de lei pelo Senado que cria o tabelamento nacional de preços de procedimentos em geral, desde consultas até cirurgias. Para felicidade dos médicos, alvos principais das medidas de redução de custos das operadoras desde 1999, a proposta já foi aprovada pela Câmara. Mas a conta pode acabar no bolso do consumidor, que enfrentará reajustes médios de 30% no preço das mensalidades dos planos.

Os usuários já conhecem efeitos da disputa entre médicos e operadoras. Brasilienses passaram pela experiência de terem seus convênios negados na hora do atendimento. Boicotes temporários de planos de saúde constituem um instrumento de pressão na busca por reajustes. A briga mais recente, em 2006, envolveu até hospitais - mais da metade dos particulares no DF se recusaram a atender pelos planos de uma das maiores seguradoras do país. Na crise mais longa, em 2004, o atendimento foi suspenso por seis meses e um acordo só aconteceu depois da intervenção do Ministério Público.

O cerne do confronto é o valor pago pelas operadoras pelos serviços médicos. "A maioria das empresas remunera com base em valores de 1992. Em alguns casos uma consulta vale R$ 10, R$ 15", reclama o presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), José Luiz Gomes do Amaral.

Natural defensor do projeto, acredita que a aprovação dará mais equilíbrio às negociações. "As empresas exercem muita pressão, a negociação é desigual. Para uma operadora, descredenciar um médico não representa muito, mas para o médico pode significar começar tudo do zero, porque os clientes, ainda que confiem, não terão a cobertura do plano."

O projeto 3.466 está em tramitação desde 2004 e estabelece que a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), órgão que regula o mercado de planos de saúde, será a mediadora das negociações entre médicos e operadoras. Além disso, prevê que, mesmo sem um acordo, a ANS irá arbitrar os reajustes e deverá incluí-los nos cálculos para o aumento anual nas mensalidades de planos de saúde.

            "O setor está preocupado. A ANS publicaria uma tabela e os planos seriam obrigados a pagar. E é óbvio que haveria repasse aos consumidores. O impacto pode ser muito grande, entre 66% e 150% de reajuste. É uma discussão justa, mas mesmo com repasse parcial, podemos prever aumentos de, pelo menos, 30% nas mensalidades", diz Raquel Marimon, da consultoria Strategy.

De fato, mesmo entre as operadoras é reconhecida a defasagem nos valores pagos aos médicos. Por isso a crítica se concentra na idéia de um tabelamento dos preços. "Os médicos sentiram mais o ajuste de custos do setor. Mas normatizar preços é proibido. Se isso passar, haverá uma série de ações de inconstitucionalidade", diz o superintendente da Amil em Brasília, Moacir Zanatta.

Para o presidente da Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge), Arlindo de Almeida, os órgãos de defesa da concorrência agirão contra a idéia. "Qualquer tipo de padronização de preços tem sido condenada pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e pela SDE (Secretaria de Direito Econômico, ligada ao Ministério da Justiça). O aumento de custos seria da ordem de 40%, pelo menos. A própria ANS é contra", afirma.

E é mesmo. Um parecer da agência questiona a interferência pública em uma negociação privada - entre médicos e empresas - e, especialmente, o impacto aos consumidores. A opinião não mudou. "Absorver essa negociação no reajuste anual é uma armadilha para os consumidores, porque trará maiores aumentos. Melhor seria definir uma data-base, permitir que as entidades de classe representassem os médicos nas negociações e incluir uma arbitragem privada", diz o diretor-presidente da ANS, Fausto Pereira dos Santos.

Fonte: Correio Braziliense

Link: 
http://fehospar.com.br/news_det.php?cod=2653