Setor reverte queda de rentabilidade

Setor reverte queda de rentabilidade
 

Operadoras investem em programas de prevenção e na venda de planos de co-participação. As operadoras de planos de saúde têm passado por momentos difíceis para se adequar às normas da Agência Nacional de Saúde (ANS) e ainda equilibrar a difícil equação custo/gasto. Depois de amargar uma queda de 3% na rentabilidade em 2005, as empresas conseguiram recuperar, em 2006, 16% da receita média dos planos vendidos, valor superior ao gasto médio, que subiu 10,3% por cliente. Isso garantiu uma queda na sinistralidade (custo médico dividido pela receita) de 4%, para 77%, contra 81% do mesmo período de 2005.

Dados do Anuário de Custos de Planos de Saúde (ACPS 2007), da Strategy Consultoria explicam essa reação. "O aumento nos planos de co-participação, em que o cliente assume parte do risco da operação, e os investimentos em programas de prevenção de doenças crônicas (diabetes, asma, doenças do coração, câncer) têm ajudado as empresas a recuperar suas margens", diz Raquel Marimon, consultora da Strategy.

"Nos Estados Unidos, por exemplo, todos os planos são, por princípio, de co-participação", explica Marimon, ressaltando que o modelo americano trabalha por meio de indenização. "A pessoa paga o serviço, apresenta a nota e a operadora reembolsa." Já no Brasil, em virtude do cenário inflacionário, esse modelo não conseguiu entrar em vigor. "Até mesmo as seguradoras de saúde tiveram que se render ao formato pré-pago", afirma. Além disso, há uma barreira cultural. "O brasileiro não costuma dividir o risco pelo serviço prestado", diz. Mas segundo ela, o sacrifício vale a pena.

Há redução de preço significativa tanto para clientes (18%) quanto para empresas (40%) no valor final do plano de co-participação. "Como os clientes vão dividir os custos, eles também ajudam a reduzir o número de consultas e exames desnecessários." Em 2006, o número de consultas por pessoa apresentou pequena queda de 2,1%, para 5,15 consultas/ano, segundo dados da Strategy. Por outro lado, o valor médio das consultas subiu 6%, para R$ 33,78. Já o índice de exames por pessoa cresceu 3,4%, fechando o ano em 12,49. O custo por exames também subiu: 5,3% para R$ 17,68.

Atualmente, 34,8% dos planos empresariais e 41,4% dos planos individuais são de co-participação. "Isso porque o plano individual tem crescido muito em vendas nesse formato no interior." A expectativa, é que essa tendência chegue às capitais, especialmente Rio e São Paulo, dentro de dois anos.

Medicina preventiva

De acordo com Marimon, pelo menos 40% das despesas dos planos de saúde vêm do gerenciamento de doentes crônicos. "Mas as empresas descobriram que há todo um conjunto de ações que podem melhorar a qualidade de vida dessas pessoas e que tem resultado claro nos custos."

No final do ano passado, a ANS organizou o III Seminário Nacional de Promoção à Saúde e Prevenção de Doenças e levou como exemplo a norte-americana Kaiser Permanent International, operadora com grande experiência em medicina preventiva. Entre os principais tópicos apresentados pela representante da Kaiser, Molly Porter, estavam a importância da tecnologia da informação, da gestão do cuidado e da promoção da saúde. A operadora tem uma área que busca orientar as pessoas, mesmo que não estejam doentes, a utilizarem seus serviços.

Os resultados são expressivos: a taxa de hospitalização da Kaiser equivale a 1/3 da taxa detectada na Inglaterra, ao passo que o Reino Unido apresenta menor taxa de hospitalização do que nos Estados Unidos. Marimon diz que esse tipo de informação é importante para melhorar os serviços prestados no Brasil. "Em comparação aos Estados Unidos, ainda estamos engatinhando." Além dos mais, segundo ela, para grande parte das empresas brasileiras a medicina preventiva é apenas um instrumento de marketing.

No evento, a ANS lançou o Manual Técnico de Promoção da Saúde e Prevenção de Riscos e Doenças na Saúde Suplementar, que será distribuído às operadoras e servirá como suporte teórico e técnico para que possam organizar seus programas de medicina preventiva. Dados da agência mostram que é crescente o número de operadoras desenvolve ações preventivas junto a seus beneficiários. Durante o seminário, das 160 operadoras participantes que tiveram seus programas de promoção e prevenção avaliados pela ANS, somente 15% foram reprovados por falta de qualidade nos projetos.

Fonte: A reportagem foi originalmente publicada na Gazeta Mercantil desta quinta-feira (19/7/2007)