PCBP – Processo de Certificação em Boas Práticas de Atenção à Saúde, Consulta Pública 66 da ANS, Indicadores de Acesso

PCBP – Processo de Certificação em Boas Práticas de Atenção à Saúde, Consulta Pública 66 da ANS, Indicadores de Acesso

 

Em nosso último artigo sobre o tema apresentamos os seis indicadores propostos na minuta de resolução normativa em consulta pública de número 66 categorizados por objetivo que em nosso entendimento busca medir. Neste artigo trataremos dos indicadores que abordam os aspectos de acesso.


Em nossa opinião o estímulo as boas práticas e em especial uma certificação voltada para este objetivo deveria focar no objetivo de gerar valor em saúde e não medir ou estimular acesso, pois entendemos que existem outras normativas que tratam com eficácia deste tema e vem sendo implantadas e exigidas de forma bem sucedida. Apresentamos então uma reflexão sobre os indicadores categorizados como sendo de acesso apresentando nossas considerações e proposições de ajuste visando a busca pela medição de boas práticas que gerem resultados positivos para a saúde populacional.
 

  1. Ampliar acesso a médico generalista, medindo a taxa de consultas em generalistas em relação as consultas em especialistas


Inicialmente temos que avaliar se existe de fato ausência de acesso a médicos generalistas. Se considerarmos que todo médico especialista é também um médico generalista, e também que pediatra (para as crianças), ginecologista (para as mulheres), cardiologista (para os cardiopatas), endocrinologista (para os diabéticos) e geriatra (para os idosos) atuam na prática médica como médico generalista de seus pacientes, poderíamos afirmar que não há carência de profissionais atuando como médicos generalistas. A questão aqui é o que este indicador mede e o que busca estimular.


A meta estabelecida é de aumentar em 8% no primeiro ano esta relação de atendimentos e no segundo ano em mais 5%, gerando um aumento final de 13% com relação aos indicadores antes do início das iniciativas. Já vimos muitos modelos com proposta de entrada que atendem a estes critérios com excelência, pois para cada consulta com um especialista o paciente precisa antes passar por uma consulta com um generalista. Certamente se aumentarmos o volume de consultas com médicos generalistas estamos automaticamente aumentando nosso indicador, criando um processo que para ir ao especialista a “autorização” necessária é passar no generalista.


Permanece a questão: de que maneira estamos provendo melhor resultado de saúde ao simplesmente aumentar o volume de consultas? Criar um “cotovelo” no processo de atenção a saúde, dificultando o acesso contribui para melhorar a saúde das pessoas? Certamente não era esta a intenção original, mas é este o resultado que esta medida nos leva a ter. Todo sistema é desenhado em torno do que deseja medir, se esta normativa for a público neste formato representará a perda de uma excelente oportunidade. “Todo sistema é perfeitamente desenhado para obter os resultados que obtém” (IHI – Institute for Healthcare Improvement). Não faz sentido medir volume quando o objetivo são boas práticas. Medir volume no remete a lógica do fee for service (pagamento por serviço ou por atendimento), a uma lógica que em si denota a falência do sistema de saúde suplementar. Certamente esta métrica merece uma reformulação, de maneira a focar no objetivo final.
 

  1. Taxa de visita em emergência/ pronto atendimento em relação ao total de beneficiários cobertos pelo programa


Novamente uma medida de acesso. Se uma OPS fechar as portas de acesso ao pronto socorro terá excelentes resultados neste indicador, mas o beneficiário como centro da atenção estará atendido? Certamente não. O acesso é um lado e a procura é outro. Não mudaremos a cultura dos indivíduos simplesmente medindo acesso. Há um conjunto mais amplo de valores que necessitam passar por reestruturação de maneira a mudar a cultura instalada na população brasileira, pois as idas ao pronto socorro ocorrem por falta de acesso a outra opção de atendimento. É fundamental dar acesso aos beneficiários de atenção à saúde boa e de qualidade e somente vamos redirecionar o volume de procura por atendimentos de emergência em pronto socorro ou pronto atendimento, disponibilizando acesso a informação e atendimento com conveniência.


As pessoas não procuram o pronto socorro porque desejam, mas sim por haver disponibilidade do serviço no momento da necessidade (conveniência). Se o médico atender a ligação do paciente durante a madrugada e o caso não demandar estrutura física e tecnologia para diagnóstico, o cliente será atendido, zerando esta necessidade de atenção de emergência em pronto atendimento. Isto tem mais a ver com o paciente do que com o recurso (pronto socorro). Neste processo a cultura do médico também precisa mudar, senão não teremos objetivos atingidos. Não adianta o médico atender o telefone e mandar o paciente para o pronto socorro. Ou ainda pedir um volume grande de exames para confirmar o que ele já sabe.


Considerando que o objetivo destes dois indicadores é o de fidelizar o primeiro atendimento ao beneficiário com o médico generalista, nossa sugestão para o tema é a criação de um indicador de fidelidade, que permita medir, na população abrangida pelo programa, quantos de fato desenvolveram fidelidade com seu médico generalista. Esta é a taxa que se deseja ver aumentar e deve ser ligada a taxa de satisfação do beneficiário com este processo. Em experiencias brasileiras observamos que os beneficiários que construíram esta relação com o médico generalista apresentam um nível muito superior de satisfação com o plano de saúde.


Raquel Marimon
Presidente
Strategy Consultoria Atuarial e Regulatória

 

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Data do artigo: 14/06/2018