Inteligência artificial deve levar a Dasa ao exterior

São Paulo – No comando da Dasa, maior rede laboratorial da América Latina, Pedro de Godoy Bueno – herdeiro de Edson Bueno, fundador da Amil, morto em 2017 – sabe exatamente em qual direção quer seguir com a companhia, independentemente das questões eleitorais ou econômicas. Para o empresário, vai ser com a ajuda dos avanços tecnológicos na área de diagnósticos que ele será capaz de aumentar a participação da marca no mercado brasileiro, em que lidera, com cerca de 20%, além de colocar em prática o plano de ter operações também no exterior.

Nos últimos três anos, a Dasa vem passando por imersão no desenvolvimento de novas soluções tecnológicas na área de diagnóstico. Para isso, tem se aproximado de startups e fez parceria com uma das mais conceituadas universidades dos Estados Unidos, a Harvard, para o desenvolvimento de três projetos simultâneos.

Um deles mira a área de radiologia. O objetivo da pesquisa é usar os algoritmos nos exames cardiológicos de ressonância magnética para fazer triagem entre resultados considerados normais e anormais. Isso vai permitir que os radiologistas mais experientes fiquem dedicados aos casos que apresentem algum problema, o que pode reduzir a preparação de um diagnóstico, que hoje leva de 40 a 50 minutos, para 10 a 15 minutos.

“Mas isso não quer dizer que as máquinas vão substituir os profissionais. Em um caso assim, o profissional mais experiente poderá analisar mais resultados em menos tempo, o que dá escala ao trabalho”, explica Bueno. Ele acompanha de perto os projetos que as startups brasileiras têm desenvolvido na área da saúde. Uma das portas de entrada desse ecossistema é o Cubo – centro de empreendedorismo tecnológico idealizado pelo Itaú Unibanco, em parceria com a Redpoint eventures -, onde a Dasa mantém endereço.

"É sempre bom lembrar que, aconteça o que acontecer, o país já passou por muitos períodos difíceis, enfrentou a hiperinflação, a ditadura e deu a volta por cima%u201D

Pedro de Godoy Bueno, CEO da Dasa

Fora do Cubo, a Dasa encontrou dois fornecedores. A Beep Saúde é um aplicativo que permite agendar coletas domiciliares de materiais. A rede de laboratórios está também negociando acordo com outra startup, especializada em testes genéticos vendidos diretamente ao consumidor, para processar das amostras. Essa proximidade pode colocar esse tipo de empreendimento no radar da companhia nos planos de aquisição. Por enquanto, não há nada em estudo, nem mesmo com relação a redes concorrentes, mas a oferta é grande, segundo o CEO da companhia.

“Os bancos de investimento trazem oportunidades todos os dias, mas isso só vai ocorrer no momento certo. Para nós, no caso do exterior, o que faz mais sentido é uma aquisição porque é a forma de contarmos com o know-how de quem conhece o mercado, particularmente em mercados emergentes”, diz Bueno.

Godoy Bueno garante que isso vai ocorrer independentemente dos resultados eleitorais. “Não pensamos em internacionalizar para diversificar o risco/Brasil, até porque pensamos no longuíssimo prazo e esse é um setor que costuma sentir menos impactos. Mantenho um otimismo reservado, mas é sempre bom lembrar que, aconteça o que acontecer, o país já passou por muitos períodos difíceis, enfrentou a hiperinflação, a ditadura e deu a volta por cima”, opina.

Apoio tecnológico

Bueno acredita que por meio do crescimento dos negócios e com o apoio tecnológico, conseguirá tornar a medicina diagnóstica cada vez mais acessível às pessoas, tornando os resultados mais eficientes e reduzindo custos, o que ele chama de “círculo virtuoso”. “O mercado de saúde, incluindo hospitais e operadoras de planos de saúde, já está se movimentando nessa direção e têm buscado parcerias para crescer por meio da prevenção. Não é uma prevenção de doenças que vão aparecer daqui a 10 anos, mas que podem ser cuidadas e melhorar a saúde em dois a três meses a partir do momento que são diagnosticadas”, diz o presidente da Dasa.

Bueno lembra que a Dasa passou por alguns altos e baixos até 2015. Teve três CEOs em cinco anos e no mesmo período viu passar pela sua sede quatro diretores financeiros (CFOs). Até aquele momento, acredita, faltava uma visão de longo prazo por causa da falta de continuidade na gestão dos negócios. Como efeito, a empresa perdeu participação de mercado e rentabilidade.

Com as mudanças na operação, a companhia tem conseguido nos últimos dois anos crescimento de 30% na receita. A marca subiu na avaliação da satisfação dos clientes, segundo o índice “net promoter score” (metodologia criada nos Estados Unidos) passando de 50% para 75%. “Parte disso passou pela nossa aposta em inovação e na qualidade médica. Temos investido em exames mais modernos. Além disso, passamos para toda a empresa que é preciso trabalhar com cabeça de dono”, afirma.

Desafio é tratar a saúde

A mudança da forma de a empresa trabalhar, de acordo com o presidente da Dasa, foi um dos grandes desafios que ele enfrentou. Também foi preciso investir em novas tecnologias para o dia a dia do negócio. Para isso, foi fechada uma parceria com a Amazon, que implantou a AWS (Amazon Web Services), que fornece acesso sob demanda para servidores de aplicativos, armazenamento, bancos de dados, entrega de conteúdo, e permite a execução de aplicativos que melhoram a experiência para o cliente.

Brasília foi um dos mercados onde a Dasa colocou as mudanças em prática. A empresa transformou a operação com a marca Pasteur em Exame Imagem e Laboratório, outra marca do grupo, aumentou o treinamento da equipe e melhorou o corpo médico. Nos últimos três anos, a Dasa investiu R$ 1,7 bilhão, incluindo novas tecnologias e aquisições de concorrente. “Todo esse processo de turn-around (expressão inglesa usada como sinônimo de mudança e recuperação das corporações) foi concluído no fim do ano passado”, completa.

Parte desses recursos foi usada para equipar um centro de diagnósticos em Barueri, na Grande São Paulo, por onde passam diariamente cerca de 40 mil amostras laboratoriais – 25 milhões por ano. A análise dos tubos é feita por softwares, com a ajuda de inteligência artificial, que interpreta os dados e aponta os resultados. Graças ao acúmulo de informações que o equipamento permite, quanto mais amostras forem analisadas, maior será o seu repertório e mais rápido e preciso o resultado.

O equipamento da Roche Diagnóstica permitiu que a Dasa aumentasse sua produtividade em 14%. Ao todo, são 148 metros de esteiras, acopladas a 54 módulos e a equipamentos de precisão. A tecnologia reduziu em até 10 horas o ciclo para análise de uma amostra de sangue. Esses pequenos tubos são coletados em 1.900 cidades. Entre hospitais e laboratórios, são atendidos cerca de 5 mil clientes. Os novos equipamentos aumentaram em 15% a quantidade de testes de especialidade que podem ser feitos com a mesma quantidade de amostras do paciente.

Agora, o desafio, segundo Bueno, é olhar com lupa as tecnologias emergentes que estão surgindo no mundo do diagnóstico e “tratar a saúde, não a doença”.  “A questão do custo sempre foi um problema para o setor, mas ele será cada vez menor à medida que a medicina diagnóstica avançar, apontar mais cedo um problema de saúde e permitir que o tratamento comece ainda no início da doença. Por acreditar nisso é que achamos tão importante trabalhar com o paciente enquanto ele ainda está saudável ou quando podemos estabilizar um doente crônico. Não será apertando preço que se vai resolver os problemas do setor de saúde”, analisa.

Fonte: Correio Brasiliense - 02/10/2018


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Data da notícia: 05/10/2018