Falta de coordenação de cuidados é gatilho para variabilidade não-desejada

Na semana passada tivemos a oportunidade de conversar com Denise Basow, CEO da Unidade de Negócios de Efetividade Clínica da Wolters Kluwer. Denise iniciou a carreira como médica e passou pelo cargo de Editora-Chefe do UpToDate, até assumir, em 2015, seu papel atual.

Para ela, a experiência em conteúdo a ajudou a entender melhor o negócio da empresa de forma profunda e ao mesmo tempo ampla, o que deixou muitas decisões como CEO instintivas. Mas mais importante ainda, ela cita seu treinamento médico: “Como médico, você aprende a triar as coisas importantes das muito importantes nas situações em que existe um problema. Você não pode focar em tudo e deve permanecer calmo. Eu acho que tudo isso é muito aplicável ao negócio. Quando o negócio cresce, é muito fácil se distrair com os problemas, questões que deseja resolver, mas você deve ser muito bom em priorizar. Triar a todo tempo, se manter calmo e focado”. Além de ter a vantagem de conhecer e se identificar com os usuários finais da solução.

Denise acredita que existem muitas discussões sobre custos no sistema de saúde, segundo alguns, uma das perversas variáveis do VBHC. Mas, em sua visão, os custos devem ser encarados de três formas: os custos em tecnologia, os desperdícios e a variabilidade não desejada, que podem ser custos bons ou ruins. Às vezes, no setor, os custos sobem em decorrência de avanços tecnológicos. A inovação pode ser cara, mas há uma confiança de que a utilização da melhor tecnologia disponível, geralmente significa melhor cuidado e consequente melhora na experiência do paciente. Por outro lado, as ineficiências existem aos montes. Para citar algumas, vemos demora no agendamento de consultas e falta de coordenação do cuidado, acarretando em sub ou sobre tratamentos. E acabam tendo um peso financeiro bem grande na conta. “O processo não é sempre azeitado. Mas um bom exemplo é o National Health Service (NHS), sistema de saúde britânico. Eles colocaram em prática várias técnicas de Six Sigma no cuidado de saúde e conseguiram tirar muito do custo focando no processo”, disse ela.

A outra categoria é referida como variabilidade não-desejada. Ela é focada no cuidado clínico e nas decisões tomadas pelos profissionais da equipe: médicos, enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas e até mesmo o próprio paciente. Basow conta que o termo já vem sendo muito estudado e significa o tratamento diferente que o paciente geralmente recebe somente por escolher sua clínica/hospital ou por qual médico estará atendendo naquele momento, ou seja, não está relacionado com boas práticas baseadas em evidências. “Nós sabemos que a variabilidade não-desejada é bem dispendiosa, porque leva a decisões erradas, testes desnecessários, diagnósticos incorretos, e todos os itens relacionados que poderiam ser evitados”, conta Denise.

Pesquisas citadas pela executiva mostram que esta questão ocorre por três principais motivos: O primeiro é que nem sempre o corpo clínico tem acesso à melhor informação baseada em evidência, então há um conflito de informações entre as rotinas e bagagem pessoal dos profissionais; A segunda é a preferência do paciente. Entender como eles se engajam e qual é a forma mais efetiva de transmitir as informações para a decisão do tratamento fazem diferença. Alguns tratamentos requerem participação ativa, e eles nem sempre possuem o conhecimento necessário para a decisão ou cumprimento das orientações médicas; E a terceira é um problema de recursos. Tipicamente, diz ela, se um provedor possui mais cardiologistas, é esperado que existam mais procedimentos cardiológicos.

“O núcleo da variabilidade não-desejada é a falta de coordenação de cuidados, e o resultado é um sistema de baixa qualidade no cuidado e muito desperdício no sistema.”, resume Denise, e continua, “Essa é uma das áreas que podemos ajudar. Se reunirmos a equipe clínica e o paciente em um entendimento único da situação, aliado com o que há de melhor em cuidado baseado em evidência, então começamos a endereçar corretamente o cuidado clínico, melhorar a qualidade e o custo.”

Para ilustrar a diferença do que seria uma variabilidade desejada, ela explica: no caso, por exemplo, de um paciente com uma veia bloqueada e dor no peito. Normalmente o indicado seria a desobstrução de veia, mas existem fatores fisiológicos, como idade. O que é bom para um grupo de pacientes, pode não ser bom para outros, essas decisões são baseadas no histórico e condições do paciente individual, isso se encaixa na variabilidade desejada, um cuidado personalizado.

“Infelizmente nem sempre temos a informação perfeita na medicina, então temos que interpretar. Diferentes pessoas podem ter diferentes interpretações, e é por isso que os protocolos padonizados podem conflitar entre si”, conta Denise. Existem evidências de baixa, média e alta qualidade. Se houvesse somente a última, todos os protocolos seriam iguais e haveria concordância em todas as situações.

A executiva conta que, com o UpToDate, eles estão tentando olhar para vários registros com o apoio de especialistas nos temas, e criar um protocolo para suporte à decisão clínica. Segundo ela, existem algumas razões pelas quais o sistema pode não concordar com os protocolos padronizados das instituições: eles não estão atualizados ou embasados em novas evidências científicas, ou simplesmente há interpretações distintas de um mesmo dado.

“O mais importante é que estamos tentando não só responder as questões já atendidas pelos protocolos, mas resolver um universo inteiro de questões que podem surgir na medicina. Porque protocolos, por necessidade, são limitados a tópicos estreitos nas recomendações.” explica Denise.

Em relação ao Brasil, ela acredita que o país está tão avançado quanto qualquer outro país desenvolvido em termos de adoção de prontuários eletrônicos. Porém, do ponto de vista da utilização desse software para entregar suporte à decisão, não. “Existem muitos estudos que mostram que não há melhora na qualidade entregue ao paciente somente por implementar um prontuário eletrônico. Ele deve ser integrado a um sistema de suporte a decisão para se tornar, de fato, um driver.”

Para a empresa, o país tem importância estratégica na área de negócios e impacto na missão. A missão, discutida em bases globais, é melhorar a qualidade do sistema de saúde e o Brasil, pelo seu tamanho, se enquadra absolutamente na proposta. Pelo business, além do tamanho considerável, o país também tem uma perspectiva de tecnologia interessante: existem muitos prontuários eletrônicos, mas não tantos quanto em outros países. Isso faz com que se aumente a atratividade de negócios que necessitem de integração. “Não é necessário ter parceria com 20 fornecedores diferentes, podemos trabalhar com um ou dois e já ter um impacto enorme”, diz Denise. Além disso, ela conta que os fornecedores brasileiros são muito colaborativos e o sistema é bem estabelecido.

Para finalizar, a executiva reflete sobre as formas de aprendizado do futuro. “Eu acredito que quase tudo envolverá realidade virtual e nós não deveríamos brigar contra essa tendência. É claro que a próxima geração de médicos não se contentará apenas com livros”. Ela diz que alguns conteúdos ainda deverão ser comunicados via escrita, mas que existe espaço para as novas tecnologias como ferramentas de conhecimento.

Fonte: Saúde Business - 09/08/2018


Data da notícia: 10/08/2018